jeudi 15 octobre 2015

O Último Fado








Algunas noches en cualquier taberna de Alfama,
a última hora de la madrugada,
cuando han terminado de cantar los fadistas profesionales
sus fados tradicionales,
surge alguien espontáneamente de alguna esquina
para cantar el último fado. 








Amigos meus, 
já o dissesse Jorge Fernando,
“Alegria em mim já não existe,
porque a solidão, à noite em mim persiste”



Amigos meus,
Amália Rodrigues já morreu,
Luis de Camões já morreu,
Fernando Pessoa já morreu,
Saramago é um nome numa lápida,
Viriato já não voltará a correr a cavalo pela Serra da Estrela,
 ficamos somente seus filhos enrijecidos pela frieza e a solidão.


A pior de todas as friezas, 
a frieza dos corações gelados.


 A pior de todas as solidões, 
a solidão cega entre a multidão que corre


Martim Moniz é uma lenda
 de uma gallardía individual estranha e perdida.


Vasco da Gama é uma lembrança 
de um império e uma natureza esgotada.



Afonso Henriques parece já uma inapreensível mitologia homérica. 







Amigos meus, 
Geraldo Geraldes já não é Geraldo Sem Pavor,
mas regressaram os tempos nos que se fala da história e da pátria 
caminhando pela avenida da Liberdade.



Mas amigos meus, 
¿quem sabe o que é a pátria?
Já ninguém sabe neste tempo de dúvidas,
sobre o seu verdadeiro valor,
sobre a sua verdadeira realidade,
e Teresa de Tarouca também não nos ajudou 
quando então cantou-nos:

“A pátria não é apenas
um corpo de bailador.
Não são duas mãos morenas
nem mesmo um beijo de amor...
A pátria, realidade
vive em nós porque vivemos”.

Porque amigos meus,
¿quando sabe o homem de certo
si ainda esta vivendo ou si já está morrendo,
quando sabe o homem mortal
quando a pátria é só um sonho ou é ainda uma realidade,
si não está seguro de viver ou de morrer?






Amigos meus,
quando poderemos cantar de novo 
aqueles versos do Martins?
“Os donos deste país
somos nós, os portugueses”,
e uma manhã poder cantar outra vez,
“Ó minha terra lavrada,
com arado da tristeza,
hoje em dia o sol é nosso”,
e pela noite percorrer as tascas de Alfama
á procura de escutar de novo 
na voz do Carlos do Carmo,
a dança de loucura daquela bailarina:

“Baila, baila bailarina
vem bailar o pé de mim,
põe um ar de Colombina,
eu hei-de ser teu Arlequím”







Amigos meus, 
¿quem descobrirá que o problema de Portugal
é o mesmo que p'ra Lisboa 
já escrevesse Manuela de Freitas
“Engrandecem-te o passado,
fazem trovas ao teu povo,
vão repetindo o teu fado,
mas não te inventam de novo”



Saudades de um Portugal invencível e aventureiro,
quando a Torre de Belém é já um suvenir fotográfico,
os pastéis de nata uma mercadoria
e o vinho do Porto um valor de mercado.


Saudades de uma velha Lisboa,
onde alguma vez tudo foi uma possibilidade,
ainda que fosse uma ilusão impossível.








Amigos meus,
Lisboa segue possuindo os rés-do-chão 
e as altas mansardas,
mas ameaçadas de derrubamento e morte.



Lisboa já não tem lendas de heróis 
nem princesas trancadas em torreões,
só tem novos amos, novos escravos
desta economia da modernidade,
mestra da gestão de dúvidas e dívidas,
mestra da criação de medos e recompensas,
que faz dos homens débis, escravos perfeitos
e converte aos homens temerários 
em revolucionários sem povo a quem libertar,
ou em suicidas debruçados ao abismo de uma janela escura.




Amigos meus,
como cantou-nos a Salgueiro,
“Lisboa tem a tradição,
dos bairros antigos.
Lisboa tem histórias de reis,
de mares e de selvas.
Lisboa tem histórias de hotéis,
de espiões e de guerras.
Lisboa tem lendas do cais”.





Mas Lisboa, 
amigos meus, 
já não tem lendas de heróis, 
nem princesas trancadas em torreões,
somente tem homens que preferem esquecer 
e chorar fados com desconhecidos em tascas de madrugada,
a ensinar muito cedo a arte dos sorrisos falsos
aos filhos que ainda creem que não há murallas
que não possam ser assaltadas pelo orgulho e a vontade,
esses filhos que ainda creem que o logotipo da Coca-Cola
é uma imagem de felicidade,
e a bandeira dos Estados Unidos no peito
um símbolo de liberdade,
afastados do tempo de essa lição
que espera em alguma linha do Ezra Pound,
alertando-nos que a democracia
nada tem que ver com a autonomia pessoal. 






Biel Rothaar
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